«Já estou há muito tempo no mesmo lugar. Isto vai fazer-me ficar com uma instabilidade psicológica muito grande.
Em que é que isso se pode traduzir?
Não faço a mínima ideia, estou como que anestesiado.
A anestesia de que me queixo não é moderna nem de agora. Parece que me acompanha desde sempre.
Não sou capaz de me libertar.
Tenho vivido sempre em campos de concentração, em que a minha privacidade é nula ou está dramaticamente diminuída.
Como é que a família se torna Campo de Concentração?
É muito difícil saber como e porquê...»
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Devaneios
domingo, 2 de agosto de 2009
Aloirados, longos, encaracolados e muito macios
Nunca soube se ela os lavava com amaciador ou outro produto cosmético mas era impressionante passar entre os dedos a seda daqueles cabelos.
segunda-feira, 15 de junho de 2009
Breves
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
SOLILÓQUIO
O pai voltou a estar vivo.
Sobre o vale do Ribeiro da Chã, havia agora uma ponte de apenas um arco enorme, (com o rio estreitíssimo lá no fundo) descendo muito e fazendo uma curva apertadíssima quando encontrava a outra encosta.
Daí, subindo sempre, íngreme e a direito, na direcção das Sesmarias. Mais para cima, quase tocando as nuvens, nova torre de um novo cabo de alta tensão para transporte de electricidade. Para onde?
Quase por debaixo da nova ponte um quintalejo de couves. Couves, criadas em barro vermelho, que se engordavam em estrume bem negro com o qual o barro se misturava.
As couves eram lindas, verdes, grandes e repolhudas. Mas assustava-me muito o esforço de cavar o solo e manter belo aquele couval.
Num rodopio de caleidoscópio maravilhoso, havia mais gente (raparigas) conhecida da longínqua juventude: a Preciosa do Ti Júlio, a Preciosa da Ti Piedade, a Ermelinda da Vageira e as irmãs "Grifas" e a Alice do Vale da Fonte.
E eu estava bem, sem preocupações de nenhuma espécie, feliz!
Será ser feliz isto?
terça-feira, 18 de novembro de 2008
A Ludovina
A Cecília tinha várias irmãs e irmãos, alguns ainda solteiros que habitavam a mesma casa dos pais, outros casados que viviam em várias cidades do país e que, quando em férias, se alojavam lá ou tinham casa própria. Havia ainda um, casado com uma jovem muito gorda mas bastante bonita, que vivia lá na vila. Era carteiro. De entre as solteiras, a Ludovina era a mais problemática. Feia, nariz torto, dentes que os lábios não conseguiam cobrir completamente, mas um longo cabelo castanho ondulado e embora a pele fosse de um moreno vulgar e de uma textura relativamente grosseira, tinha um corpo de estátua que cobria excessivamente de roupa. De tal maneira que ninguém reparava nela e já ia trintando para quarenta, sem encontrar companhia permanente. Cedo o Cristóvão percebeu que aqueles achaques, aquele nervoso, aquele apego às cerimónias e ao arranjo da igreja, tinha um significado óbvio.
Como visitas da Cecília, a Zulmira e o Cristóvão ficaram em casa dos pais daquela ninhada de filhos.
As divisões eram quase todas de tabique, só as paredes exteriores eram de xisto com cunhais de granito e os tectos de forro de tábuas corridas excepto o último andar que era de telha vã.
Cristóvão gostava dos labirintos e varandas por onde se passava de uma casa a outra, da sequência de alcovas, cozinhas e salas, cubículos e salões.
Altas horas, vindo da rua, trepar, varanda a varanda, a um segundo e depois terceiro piso e encontrar o secreto corpo de mulher, o da Ludovina, que negava até à morte o gosto pelo sexo mas que na soledade da noite, na ausência absoluta de testemunhas, assim se entregava tão despudorada e gulosamente.
Os nãos que valem sins apaixonados e lânguidos tornam as mulheres absolutamente incompreensíveis. Mas que interesse pode isso ter?
Diminui alguma coisa o prazer que nos proporcionam o mistério dos seus pensamentos?
Fiquem-se com eles e ofereçam-nos a loucura dos vossos corpos frementes de desejo
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Bolos e omeletas
A garota gostava. Frequentemente pedia ao pai, ou a quaisquer outras pessoas da casa, para lhe fazerem a omeleta…
O Mateus era cunhado da Zulmira e a garota, que nascera quando ela veio trabalhar para Lisboa e residia em casa da irmã, tornara-se sua afilhada de baptismo. A sua predilecta.
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
EQUÍVOCOS
Ao princípio ainda parecia que a única coisa que os ligava era o sexo mas, mesmo aí, as coisas foram-se rapidamente deteriorando. Havia muito sexo mas, bem lá no fundo do ser de cada um, nenhum ficava saciado ou razoavelmente feliz. Não conseguiam comunicar – afirmavam grande desejo um pelo outro, procuravam-se assiduamente mas...
As ejaculações do Cristóvão eram abundantes e davam-lhe prazer intenso mas deixavam sempre um rasto de desilusão. A Zulmira gozava, dizia que gozava muito, queria-o sempre lá dentro mas em nove anos de vida em comum afirmava apenas haver tido dois orgasmos com o marido e ficara-lhe a sensação de que poderia ter ido muito mais longe, como realmente ousou ir com a Teresa, com a Cecília e, mais tarde, com o padre Martins.
Pelo caminho ficaram outros desejos, outros afectos, outros arrepios de prazer clandestinos.