segunda-feira, 15 de junho de 2009

Breves

A menina Zulmira aposentou-se... estava uma professora frustrada! Já devia ter sido aposentada há muito, talvez até compulsivamente. Mas lá se foi deixando ficar. Agora quer recomeçar a escrever a estória da Escola lá do Bairro. Veremos se cumpre a promessa! Eu, Afrodísia, tentarei não a deixar esquecer

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

SOLILÓQUIO

O pai voltou a estar vivo.

Sobre o vale do Ribeiro da Chã, havia agora uma ponte de apenas um arco enorme, (com o rio estreitíssimo lá no fundo) descendo muito e fazendo uma curva apertadíssima quando encontrava a outra encosta.

Daí, subindo sempre, íngreme e a direito, na direcção das Sesmarias. Mais para cima, quase tocando as nuvens, nova torre de um novo cabo de alta tensão para transporte de electricidade. Para onde?

Quase por debaixo da nova ponte um quintalejo de couves. Couves, criadas em barro vermelho, que se engordavam em estrume bem negro com o qual o barro se misturava.

As couves eram lindas, verdes, grandes e repolhudas. Mas assustava-me muito o esforço de cavar o solo e manter belo aquele couval.

Num rodopio de caleidoscópio maravilhoso, havia mais gente (raparigas) conhecida da longínqua juventude: a Preciosa do Ti Júlio, a Preciosa da Ti Piedade, a Ermelinda da Vageira e as irmãs "Grifas" e a Alice do Vale da Fonte.

E eu estava bem, sem preocupações de nenhuma espécie, feliz!

Será ser feliz isto?

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A Ludovina

A Cecília tinha várias irmãs e irmãos, alguns ainda solteiros que habitavam a mesma casa dos pais, outros casados que viviam em várias cidades do país e que, quando em férias, se alojavam lá ou tinham casa própria. Havia ainda um, casado com uma jovem muito gorda mas bastante bonita, que vivia lá na vila. Era carteiro. De entre as solteiras, a Ludovina era a mais problemática. Feia, nariz torto, dentes que os lábios não conseguiam cobrir completamente, mas um longo cabelo castanho ondulado e embora a pele fosse de um moreno vulgar e de uma textura relativamente grosseira, tinha um corpo de estátua que cobria excessivamente de roupa. De tal maneira que ninguém reparava nela e já ia trintando para quarenta, sem encontrar companhia permanente. Cedo o Cristóvão percebeu que aqueles achaques, aquele nervoso, aquele apego às cerimónias e ao arranjo da igreja, tinha um significado óbvio.

Como visitas da Cecília, a Zulmira e o Cristóvão ficaram em casa dos pais daquela ninhada de filhos.

As divisões eram quase todas de tabique, só as paredes exteriores eram de xisto com cunhais de granito e os tectos de forro de tábuas corridas excepto o último andar que era de telha vã.

Cristóvão gostava dos labirintos e varandas por onde se passava de uma casa a outra, da sequência de alcovas, cozinhas e salas, cubículos e salões.

Altas horas, vindo da rua, trepar, varanda a varanda, a um segundo e depois terceiro piso e encontrar o secreto corpo de mulher, o da Ludovina, que negava até à morte o gosto pelo sexo mas que na soledade da noite, na ausência absoluta de testemunhas, assim se entregava tão despudorada e gulosamente.

Os nãos que valem sins apaixonados e lânguidos tornam as mulheres absolutamente incompreensíveis. Mas que interesse pode isso ter?

Diminui alguma coisa o prazer que nos proporcionam o mistério dos seus pensamentos?

Fiquem-se com eles e ofereçam-nos a loucura dos vossos corpos frementes de desejo



segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Bolos e omeletas

O Mateus costumava dar palmadinhas rápidas com a mão aberta sobre a vulva e púbis da filha para imitar o som de um ovo a ser batido em omeleta, ou a confecção de um bolo, em que se envolvem cuidadosamente açúcar, ovos, manteiga e farinha, batendo constantemente. Eram sons bastante parecidos.
A garota gostava. Frequentemente pedia ao pai, ou a quaisquer outras pessoas da casa, para lhe fazerem a omeleta…
O Mateus era cunhado da Zulmira e a garota, que nascera quando ela veio trabalhar para Lisboa e residia em casa da irmã, tornara-se sua afilhada de baptismo. A sua predilecta.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

EQUÍVOCOS

Nunca ninguém entendeu a verdadeira razão porque o Cristóvão e a Zulmira se haviam casado: tinham tão pouco em comum! E nunca conseguiram dizer um ao outro nada de relevante sobre as respectivas personalidades: sempre foram um equívoco um para o outro. Hoje, ainda continuo convencido de que, se têm ido para a cama antes do casamento, nunca se teriam embrenhado numa relação que a nenhum satisfazia.

Ao princípio ainda parecia que a única coisa que os ligava era o sexo mas, mesmo aí, as coisas foram-se rapidamente deteriorando. Havia muito sexo mas, bem lá no fundo do ser de cada um, nenhum ficava saciado ou razoavelmente feliz. Não conseguiam comunicar – afirmavam grande desejo um pelo outro, procuravam-se assiduamente mas...

As ejaculações do Cristóvão eram abundantes e davam-lhe prazer intenso mas deixavam sempre um rasto de desilusão. A Zulmira gozava, dizia que gozava muito, queria-o sempre lá dentro mas em nove anos de vida em comum afirmava apenas haver tido dois orgasmos com o marido e ficara-lhe a sensação de que poderia ter ido muito mais longe, como realmente ousou ir com a Teresa, com a Cecília e, mais tarde, com o padre Martins.

Pelo caminho ficaram outros desejos, outros afectos, outros arrepios de prazer clandestinos.


terça-feira, 4 de novembro de 2008

Casou-se!

No campanário da igrejinha, o sino tocou convocando a Assembleia de fiéis; mas não muito importante, era só a jovem putinha nova do lupanar da Villa a pedir clientela para si própria: Só para ela.
Casou-se.

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

PESADELO, CAUCHEMAR



Três horas da madrugada… Às vezes acordo tão assustado que me parece fazer parte dos sonhos em que desperto.

Sonho que sou mau, grosseiro, cruel, em guerra permanente com tudo e com todos e distingo mal o que é sonho, o que é realidade e sofro. Sofro porque faço sofrer aqueles que muito amo, ou julgo que amo, e a mim próprio. Neste sonho, agitei-me e corri muito, cansei-me; gritei, gritei, gritei numa casa vazia, onde eu sabia que era ouvido, que todos os meus impropérios altissonantes faziam alguém, principalmente a minha actual mulher e a minha filha mais velha que tenho com ela, sofrer dolorosamente. Lembro-me de lhe berrar «traidora» porque ao criticar-me a brutalidade que eu estava a usar contra uns homens ou uns rapazes que se opunham a reparar um automóvel meu, como eu queria, estava a tomar o partido deles e a impossibilitar-me de impor a minha vontade, excessivamente violenta, sentida como faltosa depois de acordado mas absolutamente justa enquanto sonhava.

A minha filha chorava, chorava muito mas não era o seu chorar que me feria, o que me doía era o sofrimento indizível que eu sentia lhe ter feito experimentar com os meus gritos, as minhas palavras, os nomes horríveis que lhe dirigi.

Que relação poderá isto ter com a narração que venho fazendo neste blogue?

Este tac-tac-tac-tac-tac-tac do relógio da sala quase me endoidece! Porque o oiço tão nítido, eu que oiço mal e não costumo sequer ouvi-lo?