Era um deslumbramento. Para qualquer lado que se olhasse a paisagem descia, descia sempre num declive caótico pejado de pedras e pedregulhos de granito, jacendo como cavalos e cavaleiros e armas e archeiros de um combate perdido, todos mortos e abandonados às rapaces da serra. O som era um silêncio vasto como a longínqua campina, com um fundo em surdina de uma aragem fresca que zunia quase imperceptível e os gritos agudos e espaçados dos milharós. Nem uma árvore até ao Castelo Velho, apenas ervas rasteiras tisnadas e giestas mirradas que a primavera já ia muito longe... junto aos caules encarquilhados, o chão estava coalhado de castanhos avermelhados das brácteas das flores secas e sementes como amontoados de excrementos dos coelhos selvagens. Cristóvão, o Zé e o Prata estiveram longo tempo em silêncio... comeram as conservas e o pão que levavam e à sombra de um enorme penhasco estenderam-se a descansar. Cristóvão olhava o céu azul, salpicado aqui e além de uma núvem ténue. O Prata ressonava – volta e meia troava como um trombone da banda de S. Vicente. Voltaram ao pôr-do-sol... Casal da Serra... Caldeira... Era lusco-fusco quando passaram à capela de S. Sebastião, estavam praticamente em casa.
sexta-feira, 23 de julho de 2010
sábado, 12 de dezembro de 2009
Um achado arqueológico
Ao fundo do adro da capela da Sª da Orada havia um troço de calçada romana em razoável estado de conservação que seguia até à Portela e depois descia até ao Fundão. Era a estrada velha que alguns mais idosos diziam ter percorrido na juventude quando precisavam de se deslocar a qualquer feira importante naquela vila. A calçada estendia-se por cerca de três quilómetros, atravessava uma casita modesta no Rabaçal, com alguns terraços seguros por pedras soltas de xisto e granito, pequenas leiras de terra onde havia vestígios de cultura de cereais, talvez centeio, hortas e árvores de fruto.
Uma vez subi lá acima com o marido da Maria do Céu, a Teresa, a sobrinha Lalá e ela própria, a Maria do Céu. Por altura do Rabaçal teve uma birra não quis subir mais. Ficou ali sentada à sombra à nossa espera. Nós subimos mais um pouco e facilmente me apercebi de que esta Teresa andava muito meiguinha com o marido da Céu e fiz o possível por me afastar com a Lalá, alegando outras pesquisas, para os deixar o mais à vontade possível.
Foi nessa altura que encontrei uma grande pedra lavrada com sinais e gravuras não identificáveis, cuja existência já me havia sido referida por um professor de Historia, também a férias em S. Vicente. Mas que ele próprio não fora ou não quisera dar a localização exacta.
Tenho ideia que um dos sinais, o colocado mais ao alto e à esquerda, parecia uma cruz céltica incompleta (assemelhava-se à suástica nazi, mas de braços curvos). Os outros sinais eram arabescos sem forma definida.
Nunca mais lá consegui voltar. Fiz um desenho aproximado do que vi gravado na pedra enquanto a miúda brincava com o areão e as ervas secas. O desenho desapareceu há muito e já não sou capaz de o reconstituir de cabeça. Quanto à Teresa apareceu depois muito afogueada, queixando-se do calor e todos os quatro descemos ao encontro da Céu, que se abraçou muito à Teresa e descemos para a capela, persistindo as duas mulheres em caminharem sempre abraçadas pela cintura...
domingo, 21 de setembro de 2008
Uma aldeia na Beira
Quando o Cristóvão pisou pela primeira vez as ruas tortuosas de S. Vicente da Beira, sentiu um apelo, um encanto, um apetite por aquela terra que nunca mais o abandonaria durante o resto da sua vida. Era pelas férias da Páscoa. A carreira parava a porta do “Noco”, na estrada nacional. Estava uma névoa pardacenta, chovia uma chuva parva miudinha e o ar que se respirava cheirava a fumo de lenha, giestas e estevas e era húmido a mais não poder ser.
Alguns curiosos vieram à porta da venda espreitar mas logo se recolheram desinteressados. A Cecília viera ao seu encontro e beijaram-se efusivamente. Ele afastou-se, recebeu das mãos do condutor a mala que este descera do tejadilho da camioneta e regressou para junto da mulher, a Zulmira, que ainda estava com o braço sobre o dorso da amiga, ambas tagarelando. (ele ainda nem suspeitara da bissexualidade delas.)
Meteram-se pelas ruas estreitas, calcetadas de seixos, onde os pés se esforçavam por manter o equilíbrio, a Rua Direita e junto à Igreja Matriz alcançaram a Travessa da Misericórdia. As casas eram de xisto sem reboco e os cunhais de granito. De granito eram também os aros das portas e das janelas e os rebates por onde se acedia às lojas e às escadas que conduziam ao outro piso. Só havia uma rua com paralelepípedos de granito, a rua do Manuel da Silva, que ia até ao Calvário e entroncava na estrada nacional, junto ao posto da Guarda Republicana, quase à ponte sobre a Ribeira da Ramalhosa, na curva para o Casal da Fraga.
A chuvinha irritante continuava. Foi muito repousante encontrarem o fogo da lareira da cozinha, e a braseira na sala, sob a camilha de tecido rendado e franjado que cobria a mesa redonda, onde todos passaram serões bem agradáveis.